domingo, 8 de junho de 2008

...and the city

Hoje recebi um pedido - coisa rara - para postagem. Sobre o dia 12 de junho. Dia dos namorados.
Lembrei-me de um documentário sobre a Índia e a globalização, e os efeitos desta última sobre a cultura milenar indiana. Aparentemente, a Índia - terra do kama-sutra com suas centenas de posições sexuais celebrando a sacralidade do amor - agora também celebra o Valentine's Day. Entram em cena uma caixa de bombons, um buquê de rosas vermelhas e um "i love you", saem de cena centenas de posições sexuais. Toda essa acrobacia sexual pode não ter nada a ver com a nossa concepção romântica do amor, mas talvez também possa ser vista simbolicamente como mil e uma maneiras de amar.
Vocês sabiam que a Índia, na nova ordem mundial, virou o grande país terceirizado na computação gráfica? E que muitos filhos de artistas tradicionais de arte indiana adaptaram suas habilidades artísticas herdadas para fazerem animações para comerciais e filmes? Tem até um desenho animado sobre o pequeno Shiva - roteiro e concepção americanos - que conta as histórias e desventuras do deus hindu, comparando-o a Denis, o pimentinha.
Parece que o mundo abriu suas pernas novamente. De novo pelo preço da alcatra...
Eu tenho me sentido frequentemente como naqueles filmes de ficção científica que projetavam um futuro em que seríamos seres meramente produtivos, com fios e eletrodos ligados a todas as partes de nossos corpos, olhos vidrados no desempenho de uma função. Uma progressão mais dark e apocalíptica dos chineses que atualmente trabalham 14/16 horas por dia fazendo camisetas, ou qualquer outra coisa numa fábrica cinzenta. Cinza como a fumaça do 1 cigarro que eles fumam no final do dia, como a vida que eles levam, como o câncer que eles desenvolvem. O câncer que é a civilização.
Não consigo deixar de imaginar um porco perverso esbaldando-se e mastigando com a boca cheia o nosso suor, e sangue, e lágrimas, e rindo de nós ao elegermos um dia no ano para homenagearmos o amor. É tudo o inverso... bombons, rosas e uma frase - i love you - não configuram uma disposição amorosa. É preciso substância. É preciso kama-sutra. É preciso parar de imitar os simuladores de Hollywood, que tentam nos reeducar em relação a como devemos nos sentir e nos comportar em relação a tudo. Porque tudo que temos feito atualmente, parece regido por modelos de comportamento perpetuados pela mídia. Mas os filmes e as novelas não são a vida real. Os atores não têm experiências reais nos filmes. É simulação. E nós - seres meramente produtivos e vidrados - apenas imitamos os simuladores profissionais. E chamamos isso de vida. E chamamos isso de amor.
Chega de drinks jogados na cara.
Chega de cena.
É preciso, mais do que nunca, sentir.
Citando Alanis: "Que tal não sermos mais masoquistas?"
Podemos aprender a amar.

terça-feira, 22 de abril de 2008

not =

I thought I wouldn't have to apologise for who I am
With you. Not with you...
Your silent words, your noisy drift
two worlds apart
like it's always been
throughout the ages
when two people meet
at a level like this
there's no other way
with me
I'm deep depth
for I know the drill
and I accept the drill
and the depth
but you freeze when you look at
Medusa - I am
and you are
petrified
mortified
by my bevaviour
this reality that overshadows
your dreams of omnipotence
of fairy-tales
the image you have of me
the life of me
in your dreams
there's no cure for splintered dreams, boy
i hope you know that
and these snakes of mine
they won't go away
for I know they're here to stay
and your eyes
oh, your eyes
don't even look at my direction
for they see through me
seek through me
for something else
for a head without snakes
for snakes without heads
for fairy-tales
but I'm no Cinderella, boy
I am Medusa

segunda-feira, 14 de abril de 2008

(promessas)

Promessas - nada.
Palavras proferidas ao vento
voam livres rumo a uma audição receptiva
penetram numa malha desejosa viscosa
e lá grudam
e ficam
e se transformam
e crescem
como um fungo
igualmente parasitárias.
"Eu acredito em você."
Eu não acredito em você
porque promessas são nada
e suas ações tem o valor das milhares de palavras vazias que você profere
e cá estou grudado, parasitado
tentando me descolar desse fungo que entrou num ouvido receptivo
e me perguntando "Por quê?"
Os pássaros voam para o sul quando o frio vem do norte
eu me recolho para o meu sul, meu mole
lá onde o fungo está e onde você nunca estará.
Eu saio quando conseguir me limpar, e a promessa de frio acabar...

domingo, 6 de abril de 2008

Inclinei minha cabeça num ângulo de 45 gaus. Ao fundo, um navio cargueiro, pontuando uma paisagem indistinta de cinza. Água e céu confundiam-se nessa praia que - quando minha - é plúmbea. Estranho como basta inclinar a cabeça 45 graus para não reconhecer mais o mundo. Lembro que, quando criança, minha brincadeira preferida era rodopiar e rodopiar e, depois, cair ao chão, e assistir a um mundo todo novo onde nada era estático e tudo estava deformado, inclusive eu mesmo, no chão, sentindo o impuxo da terra.
A pontualidade do navio, com casco avermelhado, foi quebrada pelo movimento de um pombo que planava ao vento. Asas envergadas. Peito estufado. Eu o via com a cabeça inclinada e - como se formulasse algo inédito - pensei: "Como ele está adaptado ao ar... Mais do que eu estou adaptado à terra. Mais do que aquela família ali está adaptada à terra."
Não consigo deixar de pensar que toda nossa cognição, toda nossa percepção mais serve à uma inadaptação ao mundo do que o contrário.
Should, could, would... modalidades verbais que aconselham, falam de possibilidades remotas e hipóteses.
I should have been a pigeon.
So that I could fly.
And I would fly away.

Para longe da inadaptação e avante!
Sem artifícios.
Sem artimanhas.
Sem arte.
Só o atrito; o natural da vida - o mínimo possível.
Atrito do andarilho, cuja única motivação é continuar andando, e cuja única justificativa é habitar a possibilidade gerada pelo atrito de seu corpo com o caminho em que anda. Caso contrário, tal como o pombo, o andarilho também voaria. E estou certo de que seria para longe. Sempre para .
E as pessoas perguntariam: "Pra onde vai, andarilho?" e ele, já passado, diria "Vou pra láaaa...". E, depois, outras pessoas perguntariam "Para onde foi o andarilho?" e teriam como resposta: "Foi pra ".
E você? Para onde vai?

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Pérolas aos porcos

Hoje no almoço serviram pérolas. Os presentes eram porcos. Devoraram-nas como se fossem esterco. Ou qualquer outra coisa - não faria diferença.
Ao ver a cena lembrei de uma música de uma banda com nome de frutinhas que diz que "Não vale nada além disso aqui, então eu vou viver como eu escolho ou simplesmente não vou viver". Lembrei dos que escolheram não viver. E lembrei também que eu escolhi viver, e, ainda assim sinto que tenho vivido tão pouco.
Talvez seja um simples mal-estar na cultura - cultura de dar pérolas aos porcos. Não é muito inteligente tentar convencer os porcos, e nisso eu incluo o porco que também há aqui dentro de mim, que pérolas são preciosas demais para serem tragadas sem sequer serem admiradas primeiro. Não há delicadeza que resista à ânsia violenta de satisfação dos porcos.
Talvez seja essa a violência à qual nosso presidente acha que devamos nos acostumar. Lindinho... do tipo "happy tree friends", pendurado pelo nervo óptico.

Possivelmente é por esse motivo que há muito tempo só sou feliz quando chove: a chuva cria o atoleiro e o atoleiro esbalda os porcos. Unidos sagradamente na imundície, pelos séculos dos séculos, amen.
Com os porcos esbaldados eu deslizo delicadamente, como num ballet, flanando, leve e belo. A estética da lama também pode ser bela, se você for honesto consigo mesmo e desejante. Ela tem o seu valor.
O que não tem valor são as pérolas. Essas, meus amigos, estão misturadas à ração dos porcos. E ai de quem...

Mas fui eu que paguei por essas pérolas. Com sangue e lágrimas. E muita paciência. E eu me recuso a sentar e simplesmente assistir ao espetáculo dessa festa pobre.

Declare independence. Don't let them do that to you.

domingo, 23 de dezembro de 2007

Some kind of happiness (peru de natal)

Eu percebo que os períodos das grandes festas me motivam a escrever. Talvez porque as pessoas, em geral, criem muitos planos para os feriados e eu tenha uma certa questão com esses movimentos de rebanho. Essas romarias natalinas e carnavalescas, comos os gnus que cruzam os Serengeti todos os anos, sazonalmente, me dão a impressão de que estou sendo levado a fazer algo que não quero. Existe uma obrigatoriedade de ser uma maria-vai-com-as-outras e quando você diz que não gosta de natal não é incomum ouvir que você é uma pessoa amarga, um Scrooge ou simplesmente uma pessoa chata, que gosta de reclamar da vida. Isso sem mencionar os pinheiros, a neve artificial, as frutas secas e os papais-noéis encasacados no calor de 40 graus do Rio de Janeiro, que são empurrados goela abaixo. Desculpa, mas eles também não facilitam a entrada no clima. Eu precisaria ser psicótico. Ou criança, o que dá quase no mesmo.
E os presentes de natal? Eu já detesto comprar presentes em qualquer época, mesmo para mim, mas nessa época do ano é especialmente detestável. Eu lembro uma vez que minha EX-analista-lacaniana me disse "Mas você gosta de receber presentes, não é mesmo?". Bom, em primeiro lugar eu respondo: vai se foder. Em segundo lugar eu digo: gosto de receber presentes sim, mas abriria mão deles de bom grado. E em terceiro lugar, mas não menos importante: presentes devem significar qualquer coisa, exceto a obrigação de ser lembrado.
A questão é a seguinte: o romantismo todo do natal é incrível, bem como a origem pagã de seus elementos simbólicos. Mas o que eu vejo, na prática, são as pessoas incomodadíssimas por terem que se deslocar kilômetros para passar seus natais com seus tios mal-amados, tias alcólatras, avós chantagistas-emocionais e mães controladoras, ou os mesmos elementos em outra ordem. Além de interromperem suas vidas pela necessidade de atuar num faz-de-conta que é repetido à exaustão, ao estilo Bill Murray em "O dia da marmota".
Não proponho nada aqui. Meu papel é apenas criar resistência, colocar outros elementos e falar mesmo, já que ninguém fala. Pronto, falei.
E amanhã estarei lá, constrangido, na casa da minha avó, pulando do penhasco, como todas as outras Marias.
Mas estarei também pensando "Será que não poderíamos realmente valorizar isso se não fosse uma obrigação velada?". E daí, em seguida, eu vou olhar para o peru de natal - porque desde Jesus, alguém tem que ser o bode-expiatório nessa estória- em cima da mesa e pensar: "Mais um peru degolado pela tradição". E aí eu penso que sim, o natal é pior pra uns do que para outros. E eu aqui reclamando.

Muito peru para todos neste natal. São meus votos.

sábado, 27 de outubro de 2007

quando o escorpião deixa seu exo-esqueleto

Hoje eu me sinto depois da torre.

Não senti ela ruir. Só sei que ruiu.

Não ouvi estalo; não senti nada; nem sequer perdi o equilíbrio.

Saiu como um dente de leite, que já estava mole e tinha que sair... pluft

Gone.

What am I?

Faceless mask?

Not while i speak english. The mask of the mother tongue.

Eu permaneço intacto no fundo. No fundo.

Mas ali. O mole para fora.