sábado, 2 de agosto de 2008

barba, cabelo, bigode e vida

Fiz a barba de um jeito novo, pra ver se a vida mudava junto
Não adiantou
Cortei o cabelo
Não adiantou
Mudei de roupa
Comprei novos sapatos
pra ver se o novo solado me ajudava a trilhar novos caminhos
Não adiantou
Andei por aí sem rumo para ver se achava alguma coisa
Não achei
Achei só perguntas e questões e daí conversei com pessoas pra ver se alguém tinha uma solução
Ninguém tinha
Me calei e continuei andando
Continuo andando
Continuo meio calado
Me mudei de casa
Mudei de emprego
Mudei de amigos
Mudei de amor
Me dei um gato
Não adiantou
Continuo andando
e minhas solas, elas já estão gastas
Eu preciso comprar novos sapatos
Mas eu páro e me pergunto "Por quê, já que eles não vão me levar a lugar nenhum?"
Ando em círculos
Ao redor de mim mesmo
Ouço echos
E daí eu não compro os sapatos
Nem lembro de sapatos
Nem de barba
E obviamente não vou a lugar nenhum
Daí não adianta mesmo
Mesmo.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Quem sabe uma primavera?

Eu também preciso de uma lobotomia
Tábula rasa, novamente, nova mente
Apagar todos os comentários destrutivos de papai e mamãe
Esquecer a dor pungente da minha carne sagrada ser trocada pela alcatra suja da esquina
Eu esqueço isso a cada novo dia
(Não) sou a dor
(Não) quero me identificar com ela
E lá vem ela: (não) me deixa
Tremo todo. Lágrimas que tremem e (não) escorrem.
Ah se ao menos eu pudesse respirar
(Não) posso ver porque desejo
(Não) posso dizer porque machuco
(Não) posso ouvir porque choro
(Não) posso cheirar porque (Não) respiro
Congelo: com a sensação de que gostaria que fosse para sempre
Ai desse coração repetidamente congelado querer arder de amor.
Ai dele.
Quem sabe uma primavera?
Nunca um verão.
Se eu pudesse ao menos cheirar as flores...

quarta-feira, 9 de julho de 2008

"For even the smallest zero is a great hole of nothingness, a circle large enough to contain the world"
in 'The Music of Chance', by Paul Auster

segunda-feira, 7 de julho de 2008

1 minuto de suspiro e lágrima

Me pego constantemente gastando meu tempo sem perceber. São horas e dias que se passam e nos quais eu apenas respiro. Teço essa manta de ar constantemente e já deve ter kilometros de extensão. E no entanto lá se foi o 7 de julho de 2008, por exemplo. Não foi um dia memorável. Exceto por um minuto de suspiro e lágrima que foi apenas uma promessa de nascente de rio - que não quis correr.
O resto do dia foi como todos os outros dias: vida comum de uma ordinariedade grossa que se satisfaz com o grande nada que é. Grande nada, pequenas muitas coisinhas.
A vida é um brique-braque. Um lego de coisas tolas. E quando você vê, sua vida foi feita de todas essas coisas absolutamente medíocres, como cada momento em que se respira, salpicada de eventos não-ordinários: uma conversa, uma cena, uma tragédia. Preferimos chamar esses eventos não-ordinários de vida, mas a vida mesmo é feita dos outros momentos.
Nós somos bobos e gostamos de dar um rótulo diferente pras coisas - é a diferença pela diferença. É o ego das coisas. As coisas também querem ser diferentes. Elas também são bobas.
Para o sujeito demasiadamente contemporâneo essa direção de vida chama-se derrota. Na contemporaneidade, uma vida sem abundância de rótulos no dia-a-dia é uma vida que não vale a pena ser vivida, é a vida de um perdedor - Loser. Mas quem perde mesmo é o sujeito contemporâneo que reduz sua VIDA a dias, e os DIAS a acontecimentos, e os ACONTECIMENTOS a rótulos que nem de perto descrevem suas complexidades.
Pois eu lhes digo: esse 1 minuto de suspiro e lágrima foi provavelmente o momento mais simples e vazio do meu dia. Foi o único momento com foco. Eu sabia o porquê do suspiro e o porquê da lágrima.
Nos outros momentos tudo era tão complexo... eu respirava, sem saber o porquê; meu cérebro evocava pensamentos aparentemente sem conexão; minhas vísceras funcionavam à própria revelia; meus sentidos captavam estímulos tão complexos que eu jamais poderia colocar em palavras, tudo assim ao mesmo tempo, coordenados eu nem sei como, pura mágica.
E ainda assim, decidi resumir meu dia - e meu post - pelo seu momento mais tolo e mais simples.
É que tolo e simples sou eu.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

O imperador nu e o salmão entrando pelo cu


Acho que a maioria das pessoas conhece a história da roupa nova do imperador... Lembram? O imperador não tinha trajes reais para fazer um desfile. Solução? "O imperador está trajando roupas especiais, que só são vistas pelas pessoas inteligentes", disse o porta-voz. Obviamente todos viam a roupa nova do rei. "T-u-d-o!" diziam os fashionistas. Foi um arraso na fashion-week. No entanto, o rei estava nu...


Lembro também dos elefantes brancos nas salas-de-estar, que freqüentemente viram mesa de centro, mas só para aqueles que são mestres na arte do disfarce. Outros viram cabide, mesa de jantar, puff, pet-exótico... Mas nunca, de fato, aquilo que ele é: uma presença estranha que todos negam, por não caber na decoração, no ambiente, na civilização.


E os salmões? Nadam contra a correnteza pra desovar... que sufoco. Ursos, pedras, cachoeiras e a força constante do fluxo da água. Que bicho desadaptado. Já não era pra estar extinto? Não é muito esforço? E tudo para virar sashimi, depois...

Aposto que o salmão que resolve ir com o fluxo da maré, no sentido do rio, é simplesmente ridicularizado pelos pares, chamado de louco. E aposto que ele pára, olha e pensa "Vocês nadam contra a correnteza e eu é que sou louco? Jura?".


E daí tive essa visão: um salmão entrando pelo cu do imperador. Se merecem, esses dois. Eis a roupa nova do rei: só o rabinho do salmão para fora, balançando.


Este post é dedicado a todos aqueles que fingem ver a roupa do rei, a todos que acham o salmão um peixe incrível e todos aqueles que adotaram um elefante como objeto decorativo.
Beijos, América!

domingo, 8 de junho de 2008

...and the city

Hoje recebi um pedido - coisa rara - para postagem. Sobre o dia 12 de junho. Dia dos namorados.
Lembrei-me de um documentário sobre a Índia e a globalização, e os efeitos desta última sobre a cultura milenar indiana. Aparentemente, a Índia - terra do kama-sutra com suas centenas de posições sexuais celebrando a sacralidade do amor - agora também celebra o Valentine's Day. Entram em cena uma caixa de bombons, um buquê de rosas vermelhas e um "i love you", saem de cena centenas de posições sexuais. Toda essa acrobacia sexual pode não ter nada a ver com a nossa concepção romântica do amor, mas talvez também possa ser vista simbolicamente como mil e uma maneiras de amar.
Vocês sabiam que a Índia, na nova ordem mundial, virou o grande país terceirizado na computação gráfica? E que muitos filhos de artistas tradicionais de arte indiana adaptaram suas habilidades artísticas herdadas para fazerem animações para comerciais e filmes? Tem até um desenho animado sobre o pequeno Shiva - roteiro e concepção americanos - que conta as histórias e desventuras do deus hindu, comparando-o a Denis, o pimentinha.
Parece que o mundo abriu suas pernas novamente. De novo pelo preço da alcatra...
Eu tenho me sentido frequentemente como naqueles filmes de ficção científica que projetavam um futuro em que seríamos seres meramente produtivos, com fios e eletrodos ligados a todas as partes de nossos corpos, olhos vidrados no desempenho de uma função. Uma progressão mais dark e apocalíptica dos chineses que atualmente trabalham 14/16 horas por dia fazendo camisetas, ou qualquer outra coisa numa fábrica cinzenta. Cinza como a fumaça do 1 cigarro que eles fumam no final do dia, como a vida que eles levam, como o câncer que eles desenvolvem. O câncer que é a civilização.
Não consigo deixar de imaginar um porco perverso esbaldando-se e mastigando com a boca cheia o nosso suor, e sangue, e lágrimas, e rindo de nós ao elegermos um dia no ano para homenagearmos o amor. É tudo o inverso... bombons, rosas e uma frase - i love you - não configuram uma disposição amorosa. É preciso substância. É preciso kama-sutra. É preciso parar de imitar os simuladores de Hollywood, que tentam nos reeducar em relação a como devemos nos sentir e nos comportar em relação a tudo. Porque tudo que temos feito atualmente, parece regido por modelos de comportamento perpetuados pela mídia. Mas os filmes e as novelas não são a vida real. Os atores não têm experiências reais nos filmes. É simulação. E nós - seres meramente produtivos e vidrados - apenas imitamos os simuladores profissionais. E chamamos isso de vida. E chamamos isso de amor.
Chega de drinks jogados na cara.
Chega de cena.
É preciso, mais do que nunca, sentir.
Citando Alanis: "Que tal não sermos mais masoquistas?"
Podemos aprender a amar.

terça-feira, 22 de abril de 2008

not =

I thought I wouldn't have to apologise for who I am
With you. Not with you...
Your silent words, your noisy drift
two worlds apart
like it's always been
throughout the ages
when two people meet
at a level like this
there's no other way
with me
I'm deep depth
for I know the drill
and I accept the drill
and the depth
but you freeze when you look at
Medusa - I am
and you are
petrified
mortified
by my bevaviour
this reality that overshadows
your dreams of omnipotence
of fairy-tales
the image you have of me
the life of me
in your dreams
there's no cure for splintered dreams, boy
i hope you know that
and these snakes of mine
they won't go away
for I know they're here to stay
and your eyes
oh, your eyes
don't even look at my direction
for they see through me
seek through me
for something else
for a head without snakes
for snakes without heads
for fairy-tales
but I'm no Cinderella, boy
I am Medusa