quinta-feira, 3 de abril de 2008

Pérolas aos porcos

Hoje no almoço serviram pérolas. Os presentes eram porcos. Devoraram-nas como se fossem esterco. Ou qualquer outra coisa - não faria diferença.
Ao ver a cena lembrei de uma música de uma banda com nome de frutinhas que diz que "Não vale nada além disso aqui, então eu vou viver como eu escolho ou simplesmente não vou viver". Lembrei dos que escolheram não viver. E lembrei também que eu escolhi viver, e, ainda assim sinto que tenho vivido tão pouco.
Talvez seja um simples mal-estar na cultura - cultura de dar pérolas aos porcos. Não é muito inteligente tentar convencer os porcos, e nisso eu incluo o porco que também há aqui dentro de mim, que pérolas são preciosas demais para serem tragadas sem sequer serem admiradas primeiro. Não há delicadeza que resista à ânsia violenta de satisfação dos porcos.
Talvez seja essa a violência à qual nosso presidente acha que devamos nos acostumar. Lindinho... do tipo "happy tree friends", pendurado pelo nervo óptico.

Possivelmente é por esse motivo que há muito tempo só sou feliz quando chove: a chuva cria o atoleiro e o atoleiro esbalda os porcos. Unidos sagradamente na imundície, pelos séculos dos séculos, amen.
Com os porcos esbaldados eu deslizo delicadamente, como num ballet, flanando, leve e belo. A estética da lama também pode ser bela, se você for honesto consigo mesmo e desejante. Ela tem o seu valor.
O que não tem valor são as pérolas. Essas, meus amigos, estão misturadas à ração dos porcos. E ai de quem...

Mas fui eu que paguei por essas pérolas. Com sangue e lágrimas. E muita paciência. E eu me recuso a sentar e simplesmente assistir ao espetáculo dessa festa pobre.

Declare independence. Don't let them do that to you.

domingo, 23 de dezembro de 2007

Some kind of happiness (peru de natal)

Eu percebo que os períodos das grandes festas me motivam a escrever. Talvez porque as pessoas, em geral, criem muitos planos para os feriados e eu tenha uma certa questão com esses movimentos de rebanho. Essas romarias natalinas e carnavalescas, comos os gnus que cruzam os Serengeti todos os anos, sazonalmente, me dão a impressão de que estou sendo levado a fazer algo que não quero. Existe uma obrigatoriedade de ser uma maria-vai-com-as-outras e quando você diz que não gosta de natal não é incomum ouvir que você é uma pessoa amarga, um Scrooge ou simplesmente uma pessoa chata, que gosta de reclamar da vida. Isso sem mencionar os pinheiros, a neve artificial, as frutas secas e os papais-noéis encasacados no calor de 40 graus do Rio de Janeiro, que são empurrados goela abaixo. Desculpa, mas eles também não facilitam a entrada no clima. Eu precisaria ser psicótico. Ou criança, o que dá quase no mesmo.
E os presentes de natal? Eu já detesto comprar presentes em qualquer época, mesmo para mim, mas nessa época do ano é especialmente detestável. Eu lembro uma vez que minha EX-analista-lacaniana me disse "Mas você gosta de receber presentes, não é mesmo?". Bom, em primeiro lugar eu respondo: vai se foder. Em segundo lugar eu digo: gosto de receber presentes sim, mas abriria mão deles de bom grado. E em terceiro lugar, mas não menos importante: presentes devem significar qualquer coisa, exceto a obrigação de ser lembrado.
A questão é a seguinte: o romantismo todo do natal é incrível, bem como a origem pagã de seus elementos simbólicos. Mas o que eu vejo, na prática, são as pessoas incomodadíssimas por terem que se deslocar kilômetros para passar seus natais com seus tios mal-amados, tias alcólatras, avós chantagistas-emocionais e mães controladoras, ou os mesmos elementos em outra ordem. Além de interromperem suas vidas pela necessidade de atuar num faz-de-conta que é repetido à exaustão, ao estilo Bill Murray em "O dia da marmota".
Não proponho nada aqui. Meu papel é apenas criar resistência, colocar outros elementos e falar mesmo, já que ninguém fala. Pronto, falei.
E amanhã estarei lá, constrangido, na casa da minha avó, pulando do penhasco, como todas as outras Marias.
Mas estarei também pensando "Será que não poderíamos realmente valorizar isso se não fosse uma obrigação velada?". E daí, em seguida, eu vou olhar para o peru de natal - porque desde Jesus, alguém tem que ser o bode-expiatório nessa estória- em cima da mesa e pensar: "Mais um peru degolado pela tradição". E aí eu penso que sim, o natal é pior pra uns do que para outros. E eu aqui reclamando.

Muito peru para todos neste natal. São meus votos.

sábado, 27 de outubro de 2007

quando o escorpião deixa seu exo-esqueleto

Hoje eu me sinto depois da torre.

Não senti ela ruir. Só sei que ruiu.

Não ouvi estalo; não senti nada; nem sequer perdi o equilíbrio.

Saiu como um dente de leite, que já estava mole e tinha que sair... pluft

Gone.

What am I?

Faceless mask?

Not while i speak english. The mask of the mother tongue.

Eu permaneço intacto no fundo. No fundo.

Mas ali. O mole para fora.

sábado, 25 de agosto de 2007

A corrida do sécul...oops...sexo

Que nós vivemos numa sociedade imediatista, todos já sabemos. O prazer está sempre ali na esquina, ao alcance do consumo imediato. Como já disse my dear Tori, você pode pintar, fazer permanente, mudar de cabelo - ou de esposa - as possibilidades estão aí e é tempo de decidir.
Que nós vivemos numa sociedade onde a conquista sexual, apesar de o ato ainda ser tabu, ter adquirido valor de mercadoria corrente, também já sabemos. Mais do que nunca podemos comprar e vender apelo sexual e sermos apenas carne de corte, se assim quisermos.
E aí eu vejo comercais o tempo inteiro vendendo sexo... ou melhor, vendendo conquista sexual. Porque o importante, obviamente, na nossa sociedade de consumo imediato e superficial, não é a qualidade desse sexo. Não é importante, tampouco e evidentemente, se esse sexo foi uma experiência significativa e criativa sua, onde você esteve o tempo todo, ou melhor, onde você não esteve o tempo todo, porque talvez o melhor sexo seja aquele onde as barreiras egóicas se dissolvem. Mas isso é opinião... assim como tudo, mas whatever.
Sempre vejo algum comercial onde a mulher ou o cara - lindos - conseguem alguma coisa pelo seu poder de sedução - ou seja, conquista sexual - como se isso fosse um fim em si mesmo. Tentam nos vender a idéia de que se a conquista foi efetivada, ou potencializada, então a vida valeu a pena e é por isso que devemos lutar. E daí eu me pergunto: "Quando que a possibilidade de sexo se tornou o ponto final de alguma corrida?".
E a minha questão toma forma e fôlego por eu acreditar ainda haver vida após-sexo. Quer dizer, deveria haver. Talvez para alguns elementos não exista vida e ponto, seja pré, durante ou pós-sexo. Mas e aí? Mesmo que a conquista tenha sido efetivada, mesmo que o ato sexual tenha sido consumado e mesmo que tenha sido bom, o que acontece depois que você goza?
Muitos falam da depressão pós-coito e da verdadeira ojeriza que se cria pela pessoa com quem se dividiu essa intimidade corporal e da necessidade de escaparem da "cena do crime" o mais rapidamente possível. Que merda né? Fica-se tão feliz com a possibilidade do ato e tão infeliz com a consumação do mesmo.
E existem também os casos em que as pessoas se colocam nessa situação, de maneira casual, sem maiores pretensões e algo vulcânico ocorre. E aí? Depois daquele investimento maciço e temporário num objeto segue um vácuo. Do tamanho do inverso do vulcão.

Correr para onde? Acho que sexo não é nenhum ponto de chegada. Pelo contrário, é um meio - o meio do caminho... pra onde? Ninguém sabe... uma corrida que não tem fim.

E o que há de errado? Nada. Em termos de pensamento racional, cada um faz de si mesmo aquilo que bem entender. Não é isso que está em jogo. A questão não é nem tratar o corpo como mercadoria. É submeter a substância que anima o corpo a ser vendida juntamente, porque indissociável da mercadoria. E lá se vai mais uma alma... vendida. Pelo preço da alcatra. Porra.

A alma não é um gadget...

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

The Birthday Killer

Ele escolhia suas vítimas de acordo com suas datas de nascimento. Procurava alguém do mês de julho. Escolheu aquele com ares de sonhador - sonhos de salvador dali. Relógios derretidos, crucificações 3-d e freudismo.
Aproximou-se com um bombom recheado de licor de cereja e disse "O licor do bombom é o 'como se...' do doce sangue dos sonhos". Encantou-se o sonhador com o simbolismo certeiro, que ecoou em todo o seu ser, ressoando como amor encontrado em realidade. Pura sorte, porque pura enganação. No momento seguinte estava em seus braços, peito aberto, coração pulsante - pronto para amar. Amou.
Vendo toda a mágica daquela vida fabulosa comprimida num peito, o assassino, indiferente ao mecanismo da mágica ou egoísta querendo-a para si, cravou sua mão direita no corpo - real - e retirou para si aquele coração - irreal - enquanto acariciava as costas de sua vítima com a mão esquerda.
Ao perceber que naquele coração só havia mágica enquanto havia sonho, largou-o, oco. Deixou-o para os pombos comerem. O corpo sabe-se lá quem comeu.
Paralisou-se para sempre com tamanho atordoamento. A vítima do mês de julho foi a sua última.

domingo, 29 de julho de 2007

... e que você tenha sido muito feliz!

O x-ego! de hoje foi motivado por todas as mensagens - verbais e escritas - relativas ao meu aniversário e por todas as pessoas que, porventura, alguma vez em suas vidas tenham me desejado "felicidade".

Eu confesso que convenções sociais nunca foram o meu forte. Sempre achei esquisita essa coisa de, nos aniversários, as pessoas se desejarem 'paz, saúde, amor, FELICIDADE'. O que é felicidade? O que é que se está desejando ao dizer isso?

Quando eu era criança eu dizia para mim mesmo: "Quero ser feliz." e dizia isso com autoridade e sabedoria de gente-(que-se-acha-)grande. Com o tempo, no entanto - e talvez graças a um princípio de realidade bem desenvolvido - comecei a perceber que tinha alguma pegadinha nessa tal da felicidade... eu procurava e procurava e, GOD DAMN IT!, cadê?!

Felicidade é a palavra de ordem da minha geração. Nós somos da época pós-revolução sexual, pós-pílula anti-concepcional, pós-movimentos feministas, gays e étnicos. Somos da era de aquário, onde todos os diferentes grupos e bugigangas comunicativas-tecnológicas ganham evidência por terem o copromisso e o objetivo de realizarem rapidamente nossos desejos de felicidade. Somos da geração prozac e ecstasy: felicidade em uma pílula. Somos da geração xuxa, onde "...tudo pode ser, só basta acreditar...". Quanta possibilidade de ser feliz... Mas e aí? Cadê?

Daí até passar a achar que o problema era comigo, foi um pulo. Foi uma fase um bocado paranóide, em que eu achava que todas as pessoas eram felizes - menos eu - e o culpado era o universo. "Não fui feito pra ser feliz" - eu pensava.
O que acontece, na verdade, é que eu acho que nunca soube agarrar a felicidade pelas bolas, no momento em que ela acontece. Se alguém me pergutar em qualquer momento "E aí?! Tá feliz?!" eu vou sorrir sem graça, sem jeito, debochado até. É que no fundo eu juro que eu não sei. Fico ecoando a pergunta "...estou sendo feliz? estou sendo feliz? deveria estar sendo feliz...?".

Essa coisa de felicidade é mesmo complicada, né? Acho que felicidade é alguma coisa que se dá sempre a posteriori, por excelência. Está sempre no momento seguinte, ao revisitar um momento anterior. Dessa maneira a felicidade é uma grande bobeira, se procurada no futuro: felicidade é passado. E é passado graças à enorme habilidade do psiquismo em apagar as sobras dos acontecimentos, retirando toda a pungência e urgência da realidade e transformando tudo em sonho. Felicidade é esquecimento. Felicidade é produzir, registrar e acreditar que se foi feliz.

E é por isso, minha gente, que a partir de hoje, nos aniversários e nas datas importantes e comemorativas, eu passarei a desejar às pessoas "...e que você tenha sido muito feliz!". Por uma questão de honestidade. Pra tirar o peso e a responsabilidade de sermos todos, o tempo todo, felizes.

UFA!, né?

sábado, 16 de junho de 2007

Estava escrito nas estrelas - ele seria meu...

O tema dessa semana é a predestinação - palavrinha muito polêmica, ainda mais nessas eras de "O Segredo" em que as pessoas acham que podem conseguir um diamante simplesmente por imaginá-lo e se pensarem dignas de possuí-lo. Bobinhas. Se todos realmente se achassem dignos de diamantes, de onde sairiam 6 bilhões de pedrinhas? Nesse ponto, concordo com Fiona Apple, que disse "I don't understand about diamonds, and why men buy them; what's so impressive about a diamond, except the mining work?" (Red red red) - algo como "Não entendo sobre diamantes, e por que os homens os compram; o que é tão impressionante nos diamantes, exceto o trabalho de mineração?".
Mas estou me delongando e quase associando livremente. Não é nesse sentido que eu desejo ir com X-ego nesse momento. Voltemos à predestinação.

Eu o encontrei, no dia dos namorados: meu resfriado. Foi mágico, mas no momento que eu o vi, eu sabia que ele seria meu. Pode-se dizer que foi amor à primeira vista. Vou contar-lhes a história:
Estava eu voltando de uma apresentação de trabalho de teoria psicanalítica sobre as produções do inconsciente, o ponto em que a função do sonho falha, o funcionamento pulsional, etc. Andei leve até o metrô, para escapar do trânsito e do confinamento insalubre do coletivo. Entrei na plataforma subterrânea e procurei a faixa menos cheia. Esperei.
Foi nesse momento em que ele chegou - gordo, feio, mal-vestido e tossindo uma tosse catarrenta. Pensei comigo mesmo "Ave Maria Cruz Credo... xô de mim!!" - e olha que eu nem sou católico. Ao abrirem-se as portas do coletivo, fui no sentido contrário ao dele, apesar da grande confusão de pessoas, apitos e estresses, tentando sentar o mais longe possível daquela fonte jorrante de microorganismos. Qual não foi minha surpresa quando ele se virou, andou na minha direção e sentou-se naquele lugar - sim, o único que estava vago - ao meu lado. Todos os lugares já haviam sido tomados e, na estação seguinte, o metrô já estava completamente lotado. Eu não tinha escapatória: foram 40 minutos de tentativas de prender a respiração a cada vez que ele tossia, aquela tosse catarrenta cheia de germes, balançando suas banhas e suando grosso. Ao final do trajeto, eu já me sentia quente, cansado. Sabia que ele já era meu.

O meu horror maior era saber que aqueles germes que habitavam aquele corpo asqueroso estavam, a partir daquele momento, fazendo parte também do meu. É engraçado como o que diferencia se os germes são bons ou ruins é o hospedeiro. Quando uma pessoa bonita tosse, ou espirra, você até se dispõe a aspirar aqueles microorganismos todos, absorver parte daquele todo belo. Mas a feiura é tão atraente quanto a beleza. Nosso olhar é atraído por ambas igualmente. É como se tentássemos desvendar qual é o mistério por trás de tanta fealdade. E por me deter, por todos aqueles infindáveis minutos, naquele ser nojento e me sentir estranhamente atraído por sua asquerosidade, eu a absorvi em parte, e decidi: esse resfriado é meu.

Quem mandou eu falar em produções do inconsciente né?!

*assoa o nariz*