Inclinei minha cabeça num ângulo de 45 gaus. Ao fundo, um navio cargueiro, pontuando uma paisagem indistinta de cinza. Água e céu confundiam-se nessa praia que - quando minha - é plúmbea. Estranho como basta inclinar a cabeça 45 graus para não reconhecer mais o mundo. Lembro que, quando criança, minha brincadeira preferida era rodopiar e rodopiar e, depois, cair ao chão, e assistir a um mundo todo novo onde nada era estático e tudo estava deformado, inclusive eu mesmo, no chão, sentindo o impuxo da terra.
A pontualidade do navio, com casco avermelhado, foi quebrada pelo movimento de um pombo que planava ao vento. Asas envergadas. Peito estufado. Eu o via com a cabeça inclinada e - como se formulasse algo inédito - pensei: "Como ele está adaptado ao ar... Mais do que eu estou adaptado à terra. Mais do que aquela família ali está adaptada à terra."
Não consigo deixar de pensar que toda nossa cognição, toda nossa percepção mais serve à uma inadaptação ao mundo do que o contrário.
Should, could, would... modalidades verbais que aconselham, falam de possibilidades remotas e hipóteses.
I should have been a pigeon.
So that I could fly.
And I would fly away.
Para longe da inadaptação e avante!
Sem artifícios.
Sem artimanhas.
Sem arte.
Só o atrito; o natural da vida - o mínimo possível.
Atrito do andarilho, cuja única motivação é continuar andando, e cuja única justificativa é habitar a possibilidade gerada pelo atrito de seu corpo com o caminho em que anda. Caso contrário, tal como o pombo, o andarilho também voaria. E estou certo de que seria para longe. Sempre para lá.
E as pessoas perguntariam: "Pra onde vai, andarilho?" e ele, já passado, diria "Vou pra láaaa...". E, depois, outras pessoas perguntariam "Para onde foi o andarilho?" e teriam como resposta: "Foi pra lá".
E você? Para onde vai?
...
Há 13 anos
