segunda-feira, 10 de novembro de 2008

la llorona

jovem - preto - pobre - cadeira-de-rodas - pernas finas
sozinho - se esforçando pra subir a rampa da calçada
força
esforço
impulso de ajudar - vi que ele nem sequer pedia - nem sequer olhava
acostumado ao esforço solitário
continuava
empurra a propria cadeira nas calçadas esburacadas do centro do rio na hora do rush

entrei nessa realidade por segundos
pessoa que sou -sem parâmetros pra essa adversidade
daí - invadido pelo excesso - tela de lágrimas diante dos olhos

Não importa o que sinto: ele ainda propulsiona a própria cadeira-de-rodas pelas ruas esburacadas.
Sonho acordado com uma realidade em que eu o teria ajudado. E juntos sorriríamos enquanto eu empurrasse sua cadeira, sem titubear, para onde quer que ele quisesse/precisasse ir e sem que eu quisesse/precisasse ir a lugar algum de minha parte.

Talvez ele fosse um imbecil e simplesmente me xingasse se eu quisesse ajudá-lo.
Talvez o imbecil seja eu, de querer ajudá-lo.
Ajudar uma pessoa que obviamente está muito mais escolada em enfrentar as dificuldades da vida do que eu.
Talvez seja só a vida dizendo - siga.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

pequeno animalzinho frágil na savana

Sempre que fico doente me imagino um pequeno animalzinho frágil na savana
as analogias animais sempre me acompanharam
as hominídeas também
fico pensando: se eu fosse uma gazela com dor no estômago o que eu faria?
Fico pensando no desamparo que eu - macaco civilizado - sinto. E lembro de não lembrar no semblante de um animal a sensação nítida de dor.
Será que para eles essas coisas do corpo dóem menos?
Será que é mais natural para eles doer?
Será que eles não teriam uma dor de estômago, exatamente porque não sendo civilizados não comem os acidulantes, conservantes, corantes, gorduras saturadas, e outros venenos que nós comemos?
Eu tive essa imagem: eu gazela, agonizando de dor, dor monótona mas que não passa, dor torturante, me pondo à disposição do primeiro predador que quisesse acabar com a minha agonia.
Sim, eu seria uma gazela fatalista. Alguns dizem que já sou.
Mas ainda acho que temos muito o que aprender com a bichisse dos bichos.
São muito mais bravos que nós.
Jamais se passou na cabeça de um animal, ao sentir dor, pensar "preciso ir para um hospital"
em geral, acho que eles só se recolhem e esperam a dor passar.
Se passar, melhor; se não, viram presas.
Alívio para a fome do predador e para a dor da presa.
Será que estamos, na vida, esperando predadores para tirar-nos de nossas dores?
E nem me venham com o masoquismo barato. Falo de algo mais biológico. Mais ancestral. Algo que obedece o ritmo da terra. Assim mesmo, bem riponga.
No momento hospitais não são meu local preferido.
Bom mesmo é comer sopinha, que mamãe veio aqui especialmente fazer, debaixo do edredon.
Alívio.

sábado, 2 de agosto de 2008

barba, cabelo, bigode e vida

Fiz a barba de um jeito novo, pra ver se a vida mudava junto
Não adiantou
Cortei o cabelo
Não adiantou
Mudei de roupa
Comprei novos sapatos
pra ver se o novo solado me ajudava a trilhar novos caminhos
Não adiantou
Andei por aí sem rumo para ver se achava alguma coisa
Não achei
Achei só perguntas e questões e daí conversei com pessoas pra ver se alguém tinha uma solução
Ninguém tinha
Me calei e continuei andando
Continuo andando
Continuo meio calado
Me mudei de casa
Mudei de emprego
Mudei de amigos
Mudei de amor
Me dei um gato
Não adiantou
Continuo andando
e minhas solas, elas já estão gastas
Eu preciso comprar novos sapatos
Mas eu páro e me pergunto "Por quê, já que eles não vão me levar a lugar nenhum?"
Ando em círculos
Ao redor de mim mesmo
Ouço echos
E daí eu não compro os sapatos
Nem lembro de sapatos
Nem de barba
E obviamente não vou a lugar nenhum
Daí não adianta mesmo
Mesmo.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Quem sabe uma primavera?

Eu também preciso de uma lobotomia
Tábula rasa, novamente, nova mente
Apagar todos os comentários destrutivos de papai e mamãe
Esquecer a dor pungente da minha carne sagrada ser trocada pela alcatra suja da esquina
Eu esqueço isso a cada novo dia
(Não) sou a dor
(Não) quero me identificar com ela
E lá vem ela: (não) me deixa
Tremo todo. Lágrimas que tremem e (não) escorrem.
Ah se ao menos eu pudesse respirar
(Não) posso ver porque desejo
(Não) posso dizer porque machuco
(Não) posso ouvir porque choro
(Não) posso cheirar porque (Não) respiro
Congelo: com a sensação de que gostaria que fosse para sempre
Ai desse coração repetidamente congelado querer arder de amor.
Ai dele.
Quem sabe uma primavera?
Nunca um verão.
Se eu pudesse ao menos cheirar as flores...

quarta-feira, 9 de julho de 2008

"For even the smallest zero is a great hole of nothingness, a circle large enough to contain the world"
in 'The Music of Chance', by Paul Auster

segunda-feira, 7 de julho de 2008

1 minuto de suspiro e lágrima

Me pego constantemente gastando meu tempo sem perceber. São horas e dias que se passam e nos quais eu apenas respiro. Teço essa manta de ar constantemente e já deve ter kilometros de extensão. E no entanto lá se foi o 7 de julho de 2008, por exemplo. Não foi um dia memorável. Exceto por um minuto de suspiro e lágrima que foi apenas uma promessa de nascente de rio - que não quis correr.
O resto do dia foi como todos os outros dias: vida comum de uma ordinariedade grossa que se satisfaz com o grande nada que é. Grande nada, pequenas muitas coisinhas.
A vida é um brique-braque. Um lego de coisas tolas. E quando você vê, sua vida foi feita de todas essas coisas absolutamente medíocres, como cada momento em que se respira, salpicada de eventos não-ordinários: uma conversa, uma cena, uma tragédia. Preferimos chamar esses eventos não-ordinários de vida, mas a vida mesmo é feita dos outros momentos.
Nós somos bobos e gostamos de dar um rótulo diferente pras coisas - é a diferença pela diferença. É o ego das coisas. As coisas também querem ser diferentes. Elas também são bobas.
Para o sujeito demasiadamente contemporâneo essa direção de vida chama-se derrota. Na contemporaneidade, uma vida sem abundância de rótulos no dia-a-dia é uma vida que não vale a pena ser vivida, é a vida de um perdedor - Loser. Mas quem perde mesmo é o sujeito contemporâneo que reduz sua VIDA a dias, e os DIAS a acontecimentos, e os ACONTECIMENTOS a rótulos que nem de perto descrevem suas complexidades.
Pois eu lhes digo: esse 1 minuto de suspiro e lágrima foi provavelmente o momento mais simples e vazio do meu dia. Foi o único momento com foco. Eu sabia o porquê do suspiro e o porquê da lágrima.
Nos outros momentos tudo era tão complexo... eu respirava, sem saber o porquê; meu cérebro evocava pensamentos aparentemente sem conexão; minhas vísceras funcionavam à própria revelia; meus sentidos captavam estímulos tão complexos que eu jamais poderia colocar em palavras, tudo assim ao mesmo tempo, coordenados eu nem sei como, pura mágica.
E ainda assim, decidi resumir meu dia - e meu post - pelo seu momento mais tolo e mais simples.
É que tolo e simples sou eu.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

O imperador nu e o salmão entrando pelo cu


Acho que a maioria das pessoas conhece a história da roupa nova do imperador... Lembram? O imperador não tinha trajes reais para fazer um desfile. Solução? "O imperador está trajando roupas especiais, que só são vistas pelas pessoas inteligentes", disse o porta-voz. Obviamente todos viam a roupa nova do rei. "T-u-d-o!" diziam os fashionistas. Foi um arraso na fashion-week. No entanto, o rei estava nu...


Lembro também dos elefantes brancos nas salas-de-estar, que freqüentemente viram mesa de centro, mas só para aqueles que são mestres na arte do disfarce. Outros viram cabide, mesa de jantar, puff, pet-exótico... Mas nunca, de fato, aquilo que ele é: uma presença estranha que todos negam, por não caber na decoração, no ambiente, na civilização.


E os salmões? Nadam contra a correnteza pra desovar... que sufoco. Ursos, pedras, cachoeiras e a força constante do fluxo da água. Que bicho desadaptado. Já não era pra estar extinto? Não é muito esforço? E tudo para virar sashimi, depois...

Aposto que o salmão que resolve ir com o fluxo da maré, no sentido do rio, é simplesmente ridicularizado pelos pares, chamado de louco. E aposto que ele pára, olha e pensa "Vocês nadam contra a correnteza e eu é que sou louco? Jura?".


E daí tive essa visão: um salmão entrando pelo cu do imperador. Se merecem, esses dois. Eis a roupa nova do rei: só o rabinho do salmão para fora, balançando.


Este post é dedicado a todos aqueles que fingem ver a roupa do rei, a todos que acham o salmão um peixe incrível e todos aqueles que adotaram um elefante como objeto decorativo.
Beijos, América!